quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Fim de mês.

Overdose de sentimentos. Sejam eles bons ou ruins.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Leite de água.

Eu quero um copo de leite. Espere, um copo não. Uma xícara. Isso. Uma xícara de leite. Espere, vermelha, certo? Isso. Uma xícara vermelha de leite. Espere, desnatado! Isso. Uma xícara vermelha de leite desnatado. Espere, tem que estar gelado. Isso. Uma xícara vermelha de leite desnatado e gelado. Espere, leite puro não. Tem que ser com Toddy. Isso. Uma xícara vermelha com Toddy dissolvido no leite desnatado e gelado. Espere, é mais gostoso batido. Isso. Uma xícara vermelha de Toddy dissolvido no leite desnatado, gelado e batido. Isso!
Pega a xícara vermelha; Bota o leite desnatado e gelado; Joga no liquidificador; Coloca o Toddy; Bate tudo; Coloca na xícara vermelha; Senta na mesa, a xícara vermelha com Toddy dissolvido no leite desnatado, gelado e batido na sua frente.
Espere, essa xícara está rachada. Poderia ter pegado um copo de plástico. Tudo bem. Espere, vermelho. Me lembra o pôr-do-sol que a dias não vejo devido ao ‘mal’ tempo. Eu gosto do ‘mal’ tempo, mas sinto falta do entardecer avermelhado. Tudo bem. Espere, desnatado? Porque não o normal? Afinal, eu não esquentei o leite, ele está gelado. Gelado? Está meio frio... Tudo bem. Ah, mas espere! Toddy? Gostava da palidez do leite. Tudo bem. Espere, batido? Fez muita espuma! Tudo bem.
Bebe o leite. Hum, queria suco.

Mar aberto.

Todas as noites ele sentava-se na proa empoeirada e olhava o movimentado reflexo lunar nas águas. Lembrava-se de tudo. Cada dia passado acumulava histórias breves e longas, dramáticas e engraçadas, com mulheres e peixes.
Cansados, os olhos fechavam-se e sorriam. Eram tempos tranqüilos. Seria ousadia dizer-lhes felizes, mas tranqüilos, ah, sim! Até demais.
A tempos as ondas não invadiam seu convés, a tempos nova terra não surgia. A vida passava assim, simplesmente passando. De uma forma até bela.
Chorava quando queria chorar, dava risada dos infortúnios irregulares da vida. Era louco, feliz sozinho. Ah, se pudessem me ouvir!

Uma história.

A praça era a mesma, mas já aparentava seus tantos anos de vida. Suas árvores não eram mais verdes, seus delicados bancos que, um dia, presenciaram as verdadeiras histórias de amor, agora estavam enferrujados. O balanço não balança mais e os ladrilhos amarelados que a circundam já não suportam peso.
Os dias passam inúteis. A noite reflete o dia que incrivelmente se conduz através das nuvens. Na realidade, o tempo é inexistente.
São poucas as pessoas que se perdem no tédio e na inocência do envelhecido olhar que refresca suas doces histórias. Lembro-me de uma, só uma. É curta e talvez incompleta, mas, Deus! Como me toca!

Fazia frio, apesar dos calorosos raios de Sol estarem presentes no céu azul. Uma jovem moça entrava sorrateira pelo caminho amarelado, com seus sapatos rosados e seu vestido rodado. Era jovem e aparentemente distraída, mas que olhar! Parecia pensar em tudo e em nada. Com sua contradição, sentava-se no banco mais próximo para melhor observar o céu.
Não se passando nem cinco minutos, sentou ao seu lado um jovem estudioso que lia algo por puro prazer.
Inicialmente, os dois jovens estavam tão distantes como duas galáxias no universo. Os pensamentos voavam e o os olhares se perdiam em meio às folhas esverdeadas as árvores e às folhas, já rasgadas, de papel. Mas, repentinamente, o jovem sentiu. Aquele doce aroma que vinha de algo desconhecido. Tomava-lhe por inteiro. Depois de uma fração de segundos, ele escutou a tranqüila respiração, digna de uma dama. O olhar desviou-se da fabulosa história que estava a ler e perdeu-se nas árvores em busca da moça que o cativara. Obviamente, o curioso moço sabia para onde olhar, mas como olhar?
Engraçado como os sentidos são aguçados. A bela moça sabia, não, espere, ela sentia. Os dois sentiam e sabiam que ambos sabiam. Seria loucura se não fosse assim.
Ela virou lentamente o rosto e, em profundo canto de olhar, observou o jovem estático a procurá-la.
Encontrando-a em meio as nuvens, ele sorriu. E pela eternidade, os dois se amaram.
Ao escutar o relógio despertar, o jovem levantou-se com pesar e foi embora em passos fundos que desejavam ficar. A jovem viu seu amante ir embora. Sorriu.
Não sabiam seus nomes, anseios ou medos. Não reconheceriam seus rostos em uma rua movimentada, mas se amaram e foram correspondidos com tamanha beleza, que detalhes mundanos não evitariam o eternizar dos doces segundos que se afundaram nas folhas a voar. A brisa continuava a soprar e tocava ambos os fios de cabelos que se encontravam, distantes.

Ah, a paixão!

Velho fusca.

Posso ser invisível aos olhos do mundo ou esquecido pelos ouvidos cansados, mas para existir, basta ser. Os antigos e enferrujados olhos de luz vêem tudo o que aqui acontece.
Desde o começo, quando o orvalho ainda reflete os raios do Sol nascente, os ouvidos – ao que parece - já não funcionais registram os conhecidos sons matinais. Profundos bocejos que percorrem o quarteirão, torneiras abertas de água corrente, laranjas sendo espremidas, risadas latentes na alegria de acordar, no pesadelo de acordar, de já estar acordado.
O dia ganha vida quando o chapéu coco, apressado, percorre a rua atrás de seu mustang já envelhecido.
A memória não é algo que me convém, mas sei que um dia já fui admirado e desejado como aquele jovem cheio de cavalos e euforia de rodar por ai.
Como todos os dias, o fabuloso mustang azulado encosta levemente na antiga caixa de correio americana. O avental florido aparece repentinamente na janela e, só para quebrar a rotina, solta um novo xingamento que, estranhamente, me parece antigo.
É incrível como certos momentos sobrevivem e se eternizam no tempo. A humilde caixa de correio espera todos os dias pelos míseros segundos em que o amado toca sua película enferrujada e vai embora pela estrada. A ida não a entristece, pois sabe que quando o Sol crescer novamente no céu, esses segundos irão se repetir.
O despertador toca e surgem resmungos no ar. O aroma de xampus e sabonetes substitui a doce fragrância das rosas. Se os pensamentos fossem claros, ninguém precisaria de banhos para realmente acordar.
As peruas escolares chegam barulhentas e grandiosas. Exibidas!
Quando bate 10:00, so sapatos de couro passam com tranqüilidade pela rua. Como pode ser tão pontual? É como Kant ao passar pelo parque universitário ou como os relógios do país das maravilhas. Maldito tempo.
E então, vêem alguns minutos estranhos. Quando o envelhecido sapato vira a esquina, os jovens começam a sair de suas casas e a encher a carga de suas carruagens de ferro. Sem os barulhentos motores, escutamos a respiração ofegante das mães, estáticas nas janelas a observar a distância crescer. A cada dia que passa, o tempo que se ve os rostos apreensivos diminuí.
Enfim a tarde chega e com ela o vestido vermelho bate a porta dos chinelos negros. Esses tais chinelos são, na realidade, casados com as sandálias plataforma, mas existem coisas que o amor gera com o tempo. Infelizmente, nem todas são boas.
Invejo as pessoas que não tem segredos. Quem não esconde nada não teme.
Ao por do Sol, devo admitir que fico nervoso. Não sou muito ligado às horas, mas essa em particular, me gravou a memória.
Ás 17:15 escuto um motor velho passar. É um barulho tão grandioso e sublime, me encanta o aroma. Vem a passar pela rua um fusca rosado com um delicado adesivo colado, quase tatuado, em sua traseira. “But you may call me Tiffany” Ah, tão bela a simplicidade. 17:17, ela passa por mim e eu a sinto, mesmo sem saber se ela me sente. São milésimos de segundos. Tão curtos e vivos. O que posso fazer? Sou apenas um fusca enferrujado, sem capotas ou pneus, parado na esquina para sempre. “Como te não amaria eu?”
Chega a lua, juntamente com as estrelas. Não as vejo, mas sei que estão aqui. Eu as amo.
As pessoas começam a chegar. O cheiro da janta toma conta de tudo. Depois, as televisões ganham vida e, ao fim, as luzes se apagam e me resta a escuridão.
As casas respiram, o silêncio fala. Amantes se entrelaçam, descansam, segredos se perdem em juras de amor, alguns rostos molham-se salgados com lágrimas de desespero, de tristeza, dor, amor.
E eu, sozinho, não sinto. Sou o nada, mas o nada ainda existe.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Triste verdade.

Ser uma bolacha não deve ser empolgante. Aliás, a curta vida dessas inocentes criaturas deliciosas chega a ser cruel. Ficam empacotadas esperando para serem devoradas. É como estar preso aguardando a forca. E o pior de tudo é que nós, seres desumanos, as embalamos em fileiras. Durante todo o curto prazo em que estão presas em seu cativeiro de plástico, a única companhia que irão desfrutar é a de outras duas aprisionadas desconhecidas que a envolvem. Isso sem falar na pobre coitada que fica na ponta.
A situação já é ruim, mas pode piorar se as pobres coitadas forem recheadas. Vai sempre existir uma pré-destinada dentro do pacote que será decapitada. É sorte quando apenas uma vítima sofre dessa crueldade, mas existem gulosos espalhados pelo mundo que fazem questão de, após retirar as pequenas e indefesas bolachas de sua prisão enfileirada, fazer uma separação de órgãos vitais. É uma técnica antiga, porém muito utilizada. A descrição desse ritual macabro não é recomendada para pessoas com problemas cardíacos. Primeiro, retira-se o recheio por completo utilizando-se da língua. Depois, as duas partes que o protegiam são digeridas, uma de cada vez.
A sociedade atual se preocupa cada vez mais com o meio ambiente, a sustentabilidade, o aquecimento global, a violência urbana e a desigualdade social. Há! Mas ninguém, eu repito, NINGUÉM, tem a coragem de olhar para o próprio umbigo e perceber quem realmente sofre. Pense nisso.

Uma gaivota, uma só.

A gaivota pairava sobre as ondas, observava-as destroçarem o mar.
Todos os dias, quando o Sol crescia fulminante no céu, ela fazia o mesmo. Todos os dias, mesmo com as asas cansadas e o bico seco, era sobre as nuvens que encontrava abrigo. Distante da areia a escutar a voz ecoante do vento. Ela queria sentir como os homens. É claro que ter cinco sentidos aguçados e plenos não lhe traria liberdade. Eram os sentimentos profundos, os seus devaneios, suas torturas que ela queria. Mas não, seu coração era inóspito. Suas raízes a prendiam aos céus.
Não lhe era cabível a desistência. Por isso, todos os dias, mesmo com as asas cansadas e o bico seco, ela buscava. O amor, o sorriso, a ansiedade. A dor, o medo, a saudade. E assim lhe era conhecido apenas o desejo. De, algum dia quem sabe, sentir.
Em suas curtas jornadas matinais, pensava consigo “tolos homens”, irritavam-lhe os discursos conseqüentes da paixão. “Corroem-se pelo desejo de desprender-se do chão, lutam incessantemente contra a gravidade, querem voar. Ah! Tolos os homens! Querem a grandeza, mal sabem eles que a leveza não traz consigo a riqueza que é o amor. Mal sabem eles que a divina verdade não está em ser livre da terra. A grande liberdade é sentir. Possuem, esses tolos, a maior maravilha já conhecida, tamanho presente incompreensível que não é concebível por ninguém. É estranhamente conquistado. Pelos sorrisos, a felicidade. Pelas lágrimas, a dor. Pelas idéias, a loucura. Pelo tempo, a saudade. Pela vida, o desejo. Tolos homens! Querem os céus, quando não percebem que em seus corações, tem o infinito.”
E todos os dias, mesmo com as asas cansadas e o bico seco, a gaivota pousava ao entardecer, sobre o poste de luz já aceso. E observava a escuridão tomar conta do horizonte. Assim, passaram-se anos. A paisagem modificara-se, os peixes já eram poucos, suas asas já não agüentavam o peso do corpo.
Pela última vez, ela voou. E mesmo com as asas cansadas pelo vento, desgastadas como as idéias tolas dos homens, mesmo com o bico seco de tanto clamar pelos sentimentos, de tanto tentar, em vão, chamar as janelas do desejado coração, ela voou.
Caída sobre o mar, algo ainda a mantinha em alerta. Seu corpo já havia morrido, suas asas já não batiam, seu bico já não respirava. Mas, Deus! Ela sentia uma enorme felicidade encher seu coração, por finalmente sentir o mar por inteiro. Ela via sua vida passar diante dos olhos, ah, saudade. Ela temia o fim. Ela sorria. “Desejo eterno maldito, foste realizado.” Ela ria, uma gargalhada que poucos seriam capaz de escutar, ela ria! Ah, ela ria!

 
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