domingo, 3 de janeiro de 2010

Uma gaivota, uma só.

A gaivota pairava sobre as ondas, observava-as destroçarem o mar.
Todos os dias, quando o Sol crescia fulminante no céu, ela fazia o mesmo. Todos os dias, mesmo com as asas cansadas e o bico seco, era sobre as nuvens que encontrava abrigo. Distante da areia a escutar a voz ecoante do vento. Ela queria sentir como os homens. É claro que ter cinco sentidos aguçados e plenos não lhe traria liberdade. Eram os sentimentos profundos, os seus devaneios, suas torturas que ela queria. Mas não, seu coração era inóspito. Suas raízes a prendiam aos céus.
Não lhe era cabível a desistência. Por isso, todos os dias, mesmo com as asas cansadas e o bico seco, ela buscava. O amor, o sorriso, a ansiedade. A dor, o medo, a saudade. E assim lhe era conhecido apenas o desejo. De, algum dia quem sabe, sentir.
Em suas curtas jornadas matinais, pensava consigo “tolos homens”, irritavam-lhe os discursos conseqüentes da paixão. “Corroem-se pelo desejo de desprender-se do chão, lutam incessantemente contra a gravidade, querem voar. Ah! Tolos os homens! Querem a grandeza, mal sabem eles que a leveza não traz consigo a riqueza que é o amor. Mal sabem eles que a divina verdade não está em ser livre da terra. A grande liberdade é sentir. Possuem, esses tolos, a maior maravilha já conhecida, tamanho presente incompreensível que não é concebível por ninguém. É estranhamente conquistado. Pelos sorrisos, a felicidade. Pelas lágrimas, a dor. Pelas idéias, a loucura. Pelo tempo, a saudade. Pela vida, o desejo. Tolos homens! Querem os céus, quando não percebem que em seus corações, tem o infinito.”
E todos os dias, mesmo com as asas cansadas e o bico seco, a gaivota pousava ao entardecer, sobre o poste de luz já aceso. E observava a escuridão tomar conta do horizonte. Assim, passaram-se anos. A paisagem modificara-se, os peixes já eram poucos, suas asas já não agüentavam o peso do corpo.
Pela última vez, ela voou. E mesmo com as asas cansadas pelo vento, desgastadas como as idéias tolas dos homens, mesmo com o bico seco de tanto clamar pelos sentimentos, de tanto tentar, em vão, chamar as janelas do desejado coração, ela voou.
Caída sobre o mar, algo ainda a mantinha em alerta. Seu corpo já havia morrido, suas asas já não batiam, seu bico já não respirava. Mas, Deus! Ela sentia uma enorme felicidade encher seu coração, por finalmente sentir o mar por inteiro. Ela via sua vida passar diante dos olhos, ah, saudade. Ela temia o fim. Ela sorria. “Desejo eterno maldito, foste realizado.” Ela ria, uma gargalhada que poucos seriam capaz de escutar, ela ria! Ah, ela ria!

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