sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Velho fusca.

Posso ser invisível aos olhos do mundo ou esquecido pelos ouvidos cansados, mas para existir, basta ser. Os antigos e enferrujados olhos de luz vêem tudo o que aqui acontece.
Desde o começo, quando o orvalho ainda reflete os raios do Sol nascente, os ouvidos – ao que parece - já não funcionais registram os conhecidos sons matinais. Profundos bocejos que percorrem o quarteirão, torneiras abertas de água corrente, laranjas sendo espremidas, risadas latentes na alegria de acordar, no pesadelo de acordar, de já estar acordado.
O dia ganha vida quando o chapéu coco, apressado, percorre a rua atrás de seu mustang já envelhecido.
A memória não é algo que me convém, mas sei que um dia já fui admirado e desejado como aquele jovem cheio de cavalos e euforia de rodar por ai.
Como todos os dias, o fabuloso mustang azulado encosta levemente na antiga caixa de correio americana. O avental florido aparece repentinamente na janela e, só para quebrar a rotina, solta um novo xingamento que, estranhamente, me parece antigo.
É incrível como certos momentos sobrevivem e se eternizam no tempo. A humilde caixa de correio espera todos os dias pelos míseros segundos em que o amado toca sua película enferrujada e vai embora pela estrada. A ida não a entristece, pois sabe que quando o Sol crescer novamente no céu, esses segundos irão se repetir.
O despertador toca e surgem resmungos no ar. O aroma de xampus e sabonetes substitui a doce fragrância das rosas. Se os pensamentos fossem claros, ninguém precisaria de banhos para realmente acordar.
As peruas escolares chegam barulhentas e grandiosas. Exibidas!
Quando bate 10:00, so sapatos de couro passam com tranqüilidade pela rua. Como pode ser tão pontual? É como Kant ao passar pelo parque universitário ou como os relógios do país das maravilhas. Maldito tempo.
E então, vêem alguns minutos estranhos. Quando o envelhecido sapato vira a esquina, os jovens começam a sair de suas casas e a encher a carga de suas carruagens de ferro. Sem os barulhentos motores, escutamos a respiração ofegante das mães, estáticas nas janelas a observar a distância crescer. A cada dia que passa, o tempo que se ve os rostos apreensivos diminuí.
Enfim a tarde chega e com ela o vestido vermelho bate a porta dos chinelos negros. Esses tais chinelos são, na realidade, casados com as sandálias plataforma, mas existem coisas que o amor gera com o tempo. Infelizmente, nem todas são boas.
Invejo as pessoas que não tem segredos. Quem não esconde nada não teme.
Ao por do Sol, devo admitir que fico nervoso. Não sou muito ligado às horas, mas essa em particular, me gravou a memória.
Ás 17:15 escuto um motor velho passar. É um barulho tão grandioso e sublime, me encanta o aroma. Vem a passar pela rua um fusca rosado com um delicado adesivo colado, quase tatuado, em sua traseira. “But you may call me Tiffany” Ah, tão bela a simplicidade. 17:17, ela passa por mim e eu a sinto, mesmo sem saber se ela me sente. São milésimos de segundos. Tão curtos e vivos. O que posso fazer? Sou apenas um fusca enferrujado, sem capotas ou pneus, parado na esquina para sempre. “Como te não amaria eu?”
Chega a lua, juntamente com as estrelas. Não as vejo, mas sei que estão aqui. Eu as amo.
As pessoas começam a chegar. O cheiro da janta toma conta de tudo. Depois, as televisões ganham vida e, ao fim, as luzes se apagam e me resta a escuridão.
As casas respiram, o silêncio fala. Amantes se entrelaçam, descansam, segredos se perdem em juras de amor, alguns rostos molham-se salgados com lágrimas de desespero, de tristeza, dor, amor.
E eu, sozinho, não sinto. Sou o nada, mas o nada ainda existe.

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